terça-feira, 12 de julho de 2016

PORQUE A AUSTRÁLIA TEM UMA ECONOMIA MAIS SAUDÁVEL.


      Às vezes precisamos aprender algo novo para entender algo antigo. E coisas que podem não possuir relação alguma entre si (ou aparentar não possuir relação entre si). Vou contar uma historinha...

   Há muito tempo em um vilarejo um viajante chegou em uma pousada, pediu um quarto e pagou 100 adiantado pela estadia. Assim que o viajante foi para o quarto o dono da pousada saiu correndo para pagar 100 ao dono da padaria que ele devia. O dono da padaria pegou o dinheiro e foi pagar 100 ao dono da loja de roupas que ele devia. O dono da loja de roupas recebeu o dinheiro e foi pagar 100 ao açougueiro que ele devia. Por fim o açougueiro recebeu o dinheiro e foi pagar 100 ao dono da pousada.
   Assim que o dinheiro chegou novamente às mãos do dono da pousada, o viajante desceu do quarto e disse que não tinha gostado das acomodações e que preferia ir embora. Recebeu seus 100 de volta e se mandou.

   Ouvi esta história há muito tempo e na ocasião não tinha entendido e nem concordado com a linha de raciocínio, mas agora vivendo em um local com uma estrutura financeira diferente daquela com a qual eu estava habituado eu compreendi e concordei com esta ideia.

   A lógica toda da coisa é que "dinheiro na mão é vendaval", mas tanto para receber quanto para gastar e isso ajuda a economia do local a girar, evitando assim que hajam desfalques nos pagamentos, juros altos e estagnação monetária (a população não fica acumulando dinheiro com medo de gastar por causa de incertezas futuras).


   Minha realidade era o de receber um salário fixo mensalmente. Todo dia específico entrava um valor previamente acordado em minha conta corrente e eu tinha de me planejar para pagar minhas contas (também mensais) nos dias que os fornecedores disseram que eu tinha de pagar.

   Os trinta dias demoram muito a chegar e muitos artigos que você gostaria de ter comprado ao longo do mês são deixados de lado porque você não tinha dinheiro vivo nas mãos. Aí que entra o famigerado cartão de crédito que possibilita adquirir tais bens com a promessa de pagá-los depois (ou parcelá-los a perder de vista) e então começa um cabo de guerra entre Valor do Desconto à Vista x Valor dos Juros no Parcelamento. E isso só causa mais um estresse no dia a dia do trabalhador que precisa fazer contas e pensar nas possibilidades de escolhas.

   Esta demora no recebimento de seus rendimentos faz com que você tenha maior insegurança em comprar algo novo. O dinheiro passa a ser mais controlado e você tende a poupar mais (sem ter um objetivo em vista, é só poupar pela incerteza mesmo). Ou então chuta o balde e soca compra no cartão de crédito, aí quando o salário entra ele serve praticamente para zerar a fatura e, como ainda faltam 30 dias para o próximo, torra as despesas no crédito novamente. E a bola de neve vai aumentando mês a mês.

   A demora no recebimento faz com que as pessoas percam o controle de quanto podem gastar e acabam exagerando. Neste momento é quando a inadimplência aumenta e os calotes começam. As pessoas necessitam de liquidez para girar as despesas do mês, mas a maior demanda por crédito faz com que os juros cobrados sejam maiores. Aquelas pessoas controladas preferem guardar dinheiro porque os juros renderão boas quantias para o futuro incerto. E novamente a economia trava.

   Outra questão importante é a justiça do recebimento. Um salário fixo independe da produtividade do colaborador e muitas vezes a empresa mantém um funcionário medíocre porque mandá-lo embora é mais burocrático e traz uma dor de cabeça maior. Isso dá armas na mão deste empregado que falta por qualquer doença e faz corpo mole, já que o seu está garantido no final do mês.

   Um último ponto interessante é a transformação de custos variáveis em fixos. Comento isso pensando na questão de estacionamento que você tem de pagar para deixar seu carro durante sua jornada de trabalho. Um salário fixo dentro de uma jornada fixa, faz com que seu estacionamento seja tratado como custo fixo, aí toca chorar para o dono do estacionamento aliviar a mensalidade nas suas férias...



   Em contrapartida um trabalho que é remunerado de acordo com a quantidade de horas que você faz acaba se tornando mais justo para ambas as partes. O empregador escalará (ou deveria escalar) aqueles empregados que contribuem mais (com uma melhor qualidade) para a sua empresa. O empregado trabalha quando estiver a fim e se quiser pode escolher ficar em uma 4ª feira em casa por exemplo. Ninguém se estressa: ambos acertam a remuneração de acordo com a quantidade trabalhada. Além do que o estacionamento é diário, ou seja, é um custo variável que impacta diretamente o valor daquele dia de trabalho. (você já fez a conta de quanto sai o valor do estacionamento fixo por dia de trabalho? )

Deixo aqui um exemplo para ilustrar.

   Uma pessoa recebe 3,000 dinheiros por mês e paga 300 fixos de estacionamento e 1,200 de aluguel.



   Alguém conseguiu enxergar rapidamente que esta pessoa recebe 100 por dia, paga 300 de aluguel por semana e 10 de estacionamento por dia? 

   Por fim o maior ponto interessante é que tanto o recebimento quanto as despesas (em sua maioria) são semanais. Ou seja, toda semana você tem dinheiro na mão e toda semana tem que pagar conta (quando não for diário o pagamento, como por exemplo o estacionamento).

   Usando o mesmo exemplo anterior...



    A conta fica mais rápida porque você calcula o quanto vai receber de acordo com as horas trabalhadas, desconta o estacionamento e junta o dinheiro necessário para o aluguel. Enxergamos que por exemplo a pessoa não recebe 100 pelo dia de trabalho, mas sim 90 (100 do dia menos 10 de estacionamento). E também fica mais fácil de entender que esta pessoa paga dois dias de aluguel para cada dia trabalhado.

   O saldo final será o mesmo, mas o controle é mais rápido e por consequência o entendimento é mais fácil.


   Termino aqui lembrando que esta lógica foi montada de acordo com a minha experiência monetária e que este é um ponto muito individual. Alguns podem se enxergar em situações semelhantes, outros podem ter possuído outras experiências. Mas o ponto em comum que na minha opinião faz a grande diferença é quando este cenário de recebimentos/ pagamentos semanais ocorre como um consenso da população (e não como uma exceção). A economia gira mais rápido, o dinheiro não fica parado e a acumulação de riquezas ocorre com objetivos definidos e não sem propósito aparente, além é claro da taxa de juros ser mantida baixa e o crédito de curto prazo praticamente não existir, já que todo mundo tem sempre dinheiro à mão.

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Até a próxima!

Alecio Miari

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